Alguns dizem que parece um conto, outros afirmam ser uma peça de teatro ou uma coreografia...
Aos poucos imagens-palavras e fotografias narradas vão construindo caminhos tão pessoais em todos os corpos do corpo.
O leitor se encaixa nos mínimos espaços das palavras/letras, questionando-se constantemente sobre a complexidade dos caminhos apresentados e em constante movimento (crise em Grego) cheira, sente, corrige, se desprende e prende-se ao continuado.
Obs:
Siga gostoso e leve.
foto: aldren lincoln
- CAPITULO 01-
NEURAL OVÁRIOS <<
Uma organização viva, habitada por mulheres-relacionais com capacidade de reprodução independente.
Esta sociedade democrática e tabelada possui um solo assimétrico e gelatinoso, de cor viva e sem efeito nocivo, irrigado mensalmente num ritual plácido de continuidade e boas vindas - um momento de renovação para todas relacionais.
Neste ritual a lua se aproxima do terceiro sol, as centenas de milhares de estrelas passadeiras cruzam o horizonte no sentido anti-horário e o chão vermelhaço e gelatinoso entra em meia ebulição. É temporariamente proibido comer abacaxi de coroa amarela, tomar banho de piscina com biquíni latino-americano e vestir branco puro. As relacionas se voltam para o centro num grande circulo com os membros inferiores em segunda posição, como no ballét, coluna ereta, seios inchados, face neutra e palma das mãos para cima, mediando coletivamente à gravidade e o Fluxo de Revolução Continua para um novo ciclo relacional.
O ritual foi iniciado...
.
Agora o ar inspirado é comparado ao evaporador meio-dia do verão soteropolitano - não se escuta o trânsito caótico ótico da trópole metrópole, o choro incessante e movediço da relacional com cárie em reprodução, nem sequer a respiração da yogin histérica com pelos pubianos encravados...
- Prepare-se.
Começou o primeiro dos cinco dias de resistência, prazer indizível e (dês)cuidado ético telepático.
O dia segue tranqüilo e escuro para as relacionais que se concentram de olhos e ouvidos fechados, na meia ebulição do chão vermelhaço surgem gotículas de colores incríveis nos cílios das relacionais, que piscam com o abraço da luz dos três sois da primavera caliente de setembro.
- Oi, sou Laura Aura!
- Me apresento à sociedade nesta primavera, no adeus do segundo sol.
- Escolhi Laura Aura porque gosto de cantarolar.
- Sim, cantarolar!
- Gosto de ouvir o abrir dos bons caminhos...
- Agora se despede dos olhos ocidentais o primeiro sol. Tenho que me preparar. E como me conheço, respirarei em cinco tempos com os dedos entrelaçados, socarei três vezes meu externo para forjar o alívio e seguirei de fórceps.
- Oi, sou Laura Aura!
Segundo Dia
O brilho se aproxima após a noite de cantata dos Galos Reis. Os peixes se aproximam dos anzóis no Rio Vermelho e os fogos de artifício anunciam um dia de oferenda, agradecimentos e petições.
São escolhidas a cada quatro horas, cinco novas LACIS - são relacionais comprometidas com a experiência de cuidar de si e das outras. A função das LACIS no ritual é de secar a sede do espaço, colher as novas habitantes relacionais, incluindo Laura Aura, e em seguida despertar as super aquecidas para regular seu ciclo evolutivo, caso contrário, sofrerão distúrbios no ciclo posterior, podendo até, ficar fora do ritual, obrigadas a caminhar descalças na tarde dos três sois em direção a nascente do Rio Vermelho.
Laura Aura ainda arredondada e com gravidade lunar, se apresenta de modo diferente as LACIS no momento da colheita.
- Oito, exatamente oito, se perderam.
- Não sei exatamente o local, mas não houve ruído algum de lá pra cá.
Estamos no momento mais delicado do ritual.
O Terceiro Dia
Todas relacionais se apresentaram como LACIS e faltam dois dias para findar o rito, a metodologia mais bem sucedida é a de colocar vasos de vidro com tonalidades de azul na cabeça, pois o azul promove um fluxo alimentação constante até o quinto dia.
- O terceiro sol esperou a lua para deixar-nos.
- A lua está parecida com aquela do gato, lembra? É o gato da relacional Alice.
- Vejam.
O Quarto Dia
Inicia-se vívido o som das ondas na Pedra da Sereia, com sombras bem marcadas pelos sombreiros e coqueiros baianos, o cheiro é muito forte, as cores são vibrantes e misturadas, são como cores angolanas...
... É uma dor respirada, sem níveis físicos, tampouco automedicados.
- Não.
- Não foram garras afiadas de mãos fortes e delicadas que me marcaram na noite do diálogo canino que se estendia da Vila Matos ao Auto de Ondina, audível e bem localizado.
- Laura Aura é gritada pelas LACIS. Grito pro alto e de boca toda.
- Recebi, responde Laura Aura gritando com os braços abertos.
- Por quanto tempo?
- Tempo é nada na espera, corre e verás como tudo mudará quando parar. Depois de um forte giro pro alto, Laura Aura se lança a observar o horizonte, como no Pai Inácio. Ah!
Alinharam-se os sois e as nuvens se reúnem obedientes de tanta tranqüilidade, são nuvens de calor, bem redondas, lentas como que lerdas depois de muito THC.
- Eu sou Laura Aura. Estou ainda novata nas vontades.
Desejo muitas coisas absurdas pra quem já vive. E sei o que vamos fazer hoje. Vamos fazer o parto do quinto dia.
- Primeiro, temos que escolher um lugar inesquecível, dividido e complexo.
- Certo. Depois colocamos tudo num recipiente dourado com 50% de transparência, sacolejamos a cintura com o dourado equilibrado na testa e sorrimos com dentes, línguas, salivas e as sobras do bombom de chocolate meio amargo com avelã e menta da caixinha mágica.
- Ah. É séria a coisa. Tenho umas dores no intra-externo que não são resolvidas com analgésico ou arnica. Sempre que reflito sobre a dor, penso na distribuição do cérebro e do coração no corpo, não poderia ser mais distante? Algo do tipo, coração nos pés, amaciados e cansados no fim do dia.
- E o cérebro?
- Ah, deixa na cabeça mesmo, enxaqueca tem remédio pra aliviar a dor. O que desestabiliza meu eixo fica no peito.


